ESCOLA PÚBLICA :Uma possível crise de identidade

UMA POSSÍVEL CRISE DE IDENTIDADE

(Miguel Sacramento)

Como cidadão e estudante integrado na comunidade escolar de São João do Estoril decidi por este meio expressar o meu total desagrado em relação aos acontecimentos desenrolados no passado dia 11 de Fevereiro no átrio desta escola.

Tais acontecimentos com que fui confrontado, devem suscitar uma reflexão profunda sobre aquilo que deve significar o espaço escolar e quais deveriam ser as suas responsabilidades e objectivos. Como aluno, assisto frequentemente a ser apregoado, quer pelo Ministério da Educação, quer através dos estatutos sobre a escola pública, quer ainda pelos agentes e direcções escolares, que a escola é uma instituição com especiais responsabilidades na formação académica e cívica dos cidadãos, através da qual são incutidos valores tão fundamentais como o respeito pela liberdade, a democracia, igualdade…e, sobretudo por todos os responsáveis da escola dito e repetido: “A escola é um local de trabalho”.

Concordando com tais pressupostos, sei também que os mesmo estatutos e discursos empregam tal tipo de chavões, mais não constituindo que meros flatus vocis, com a única intenção (infelizmente) de florear e “decorar” discursos e estatutos sobre a escola.

Pretendi, assim, analisar à luz desses valores e objectivos fundamentais da escola pública, a acção “Marketeira” por parte do grupo TMN/PT, na nossa escola, a qual, além de ter decorrido no seu espaço central, a referida acção não se coaduna minimamente com os tais referenciais e propósitos que nos foram sempre transmitidos.

A escola na minha opinião, enquanto estudante, é um local de trabalho, de conhecimento, e de desenvolvimento pessoal e humano, onde se formam cidadãos. Não é deve ser seguramente um local de propaganda publicitária, apelo ao consumo, como se de um espaço à mercê das empresas se tratasse.

A comunidade escolar não é local para formar consumidores, mas sim, um local para formar cidadãos. A escola não deve ser vista como um espaço onde se disputam e angariam potenciais consumidores/clientes, uma vez que os jovens são um alvo apetecível do mercado. A escola não deveria pactuar com tal tipo de propósitos mercantilistas!

É da responsabilidade de toda a comunidade escolar, não transformar o espaço das pessoas com fins educativos, num espaço de consumidores com fins comerciais e lucrativos.

É indispensável traçar fronteiras claras entre aquilo que é considerado local público com finalidades educativas e os locais publicitários com fins comerciais.

 

Se existem claras fronteiras no estatuto do aluno no que respeita á conduta de vestuário, entre o vestuário dito “apropriado” na escola e o “não apropriado”, justificando esta fronteira com a frase ” a escola é um local de trabalho.”, porque é que também não existem claras fronteiras, entre as actividades que se devem desenrolar na escola, em horário escolar, e as que não são próprias de serem realizadas em horário escolar? Ora, a acção em apreço está claramente desenquadrada do espírito da escola pública.

 

Neste espaço que a todos nós pertence, agentes da comunidade escolar de S.João do Estoril, penso eu que nos cabe a sua construção e defesa. Por essa razão, decidi apresentar esta minha reflexão e critica, pretendendo com isto ser construtivo, ou, pelo menos, exercer o meu direito de opinião, quanto mais não seja para contribuir para a pluralidade de opiniões sobre o que é e o que deve ser o espaço escolar.

Tendo eu conhecimento de que eventos semelhantes tiveram lugar noutras escolas, receio seriamente que a escola pública possa estar a resvalar para uma “crise de identidade” da qual não consiga sair

Por último, gostaria de manifestar a minha vontade em conhecer os termos do contrato celebrado entre a escola secundária São João do Estoril e a TMN/PT..

Agradecia que as autoridades competentes desta escola me pudessem responder, e compreender a minha reflexão e crítica como construtivas.

Com todo o respeito e apreço que tenho pela Direcção desta escola, não poderia deixar de me expressar deste modo. Por uma escola das pessoas, e não da publicidade, empresas e seus interesses.


Grato pela atenção,

Cumprimentos

Miguel Sacramento Monteiro

Carta enviada à Direcção da escola em 12-02-2010 – Ainda sem resposta.

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